P&D: Inovação e competitividade na parceria entre empresas e universidades.

Infelizmente, alguns mitos muito difundidos afetam a credibilidade da área de Pesquisa & Desenvolvimento no Brasil. Com muita frequência ouço frases como: “a pesquisa e desenvolvimento no Brasil não são sérios” ou “as políticas de incentivos fiscais beneficiam  um conjunto muito pequeno de grupos empresariais e não conseguem colocar o país no cenário global das economias inovadoras”.  Colocações desse tipo tornam urgente jogar luz sobre o tema, no sentido de situar melhor a realidade da pesquisa para uma parcela significativa da sociedade, incluindo importantes decisores das grandes empresas instaladas no Brasil. Se avaliarem de forma depreciativa, sem reconhecer as capacidades e competências disponíveis, ignoram uma valiosíssima oportunidade para desenvolvimento de seus negócios e do país.  E isso é ainda mais fundamental em momentos de crise, quando a pressão de condições adversas cria cenários propícios para reavaliar nossos modelos de atuação, seja no âmbito empresarial ou das políticas públicas.

Se por um lado há um grande campo para a melhoria em P&D no Brasil, há que se reconhecer que existem também muitas iniciativas de grande valor. Felizmente, temos amplas evidências mostrando que já passa da hora das empresas voltarem seus olhos para a pesquisa realizada nas universidades. Quem ainda considera a academia distante da realidade do mercado, vai se surpreender com o grau de maturidade de muitas universidades e centros de pesquisa, habilitados e dispostos a apoiar o setor empresarial na criação de novas soluções.

Digo isso a partir do olhar privilegiado de quem tem muita proximidade com este meio e conhece trabalhos de alta qualidade que atuam em sintonia com as necessidades do mercado e da sociedade. Até por conta das mudanças de cenário, ao longo das últimas décadas, muitas universidades se estruturaram e estão abertas a receber projetos, desafios e demandas da indústria, em alguns casos valendo-se das políticas de incentivo com resultados muito positivos, mostrando que o Brasil também tem bons exemplos de destinação de recursos para a criação de inovações no País.

E o melhor de tudo é que o desenvolvimento de parcerias entre empresas e centros de pesquisa cria relações “ganha-ganha”. A indústria se permite ter projetos de mais longo prazo, que contam com novas tecnologias surgidas ou lapidadas no âmbito da academia com rigor técnico apurado, gerando produtos diferenciados, inovadores, mais seguros e mais aderentes ao seu mercado. Por outro lado, a universidade permite que seus alunos tenham contato com as necessidades do mundo real, buscando atender às demandas da sociedade no timing esperado. Este contato, associado às bolsas para estudantes de graduação, mestrado e doutorado, incentiva a criação de especialistas em diversos níveis. É um processo que oxigena o ambiente da academia, permitindo respirar os “novos ares” na velocidade do mercado e realizar análises, provas e exercícios práticos.    

Mas, dirá o leitor, se é assim, por que não há repercussão sobre esses projetos?  Primeiro pelos efeitos ainda sentidos da distância que existia até meados dos anos 90, quando alguns centros de excelência começaram a germinar o que vemos hoje. Desde então, a universidade tem amadurecido sua proposta de atuação em consonância com o mercado, mas essa maturidade ainda não foi suficientemente disseminada.  Em segundo, porque o investimento em P&D no Brasil não tem o mesmo status que em países de maior projeção. É comum lermos sobre R&D (Research & Development) em centros de pesquisa nos Estados Unidos, Europa ou na Ásia, ou mesmo nas grandes multinacionais. Ficamos impressionados com avanços ou com as cifras envolvidas, mas não vemos movimentação dos empresários brasileiros para mudar essa realidade.

Essa mudança é essencial, pois, na era da informação, um país que não valoriza seus centros de pesquisa tende a ficar em posição desprivilegiada no cenário de competição internacional. Sem falar na diminuição crescente da competitividade das empresas nacionais em relação às multinacionais no próprio mercado brasileiro.

Posso afirmar, a partir de minha experiência profissional, que vale muito a pena. Tenho enorme satisfação de ter participado, como Gerente de P&D de vários projetos conjuntos entre a OKI Brasil e Universidades e Institutos de Pesquisa. Estes projetos e laboratórios já nos trouxeram grandes vitórias: desde recordes de desempenho de máquinas, medidos e atestados por organismos internacionais, até sofisticados algoritmos de segurança para prevenção de fraudes com biometria. Trabalhamos com Sistemas Abertos, Arquitetura de Software e com Computação de Alto Desempenho. Vi bolsistas que se tornaram professores, outros que se tornaram profissionais de destaque em suas áreas de conhecimento e muitos alunos com brilho nos olhos para tentar, mais uma vez, mudar a abordagem, refazer todos os testes, reescrever programas e revisar artigos. Mais que isso, me orgulho dos resultados: artigos publicados, trabalhos apresentados, novos mestres, novos doutores. Vi também como a indústria pode usar este conhecimento em novos produtos com alta carga tecnológica e competitividade, criando, também na indústria, áreas de excelência com produtos de destaque internacional.

A Indústria continua precisando de P&D e a Universidade, por seu lado, tem centros de excelência altamente competentes. A indústria necessita de inovação constante. Precisa atender à demanda, mas precisa também compreender que a inovação tem um ciclo - tentar, errar, refazer, começar de novo, ajustar, replicar resultados – que cobra um preço: seu próprio tempo. A academia sabe disso, e quando se alinha com a Indústria de forma colaborativa, construtiva, desafiante para ambos os lados, o resultado é quase sempre bom para todos os envolvidos e para a sociedade como um todo.

Isabel Lopes Gerum, gerente executiva de desenvolvimento de software da OKI Brasil.